Quanto cobrar pela consulta: como formar o preço sem chutar

Como o médico autônomo forma o preço da consulta particular sem chutar: custos do consultório, hora de trabalho, referência de mercado e como reajustar.

Quando abri meu consultório, defini o valor da consulta do jeito mais comum do mundo: liguei para uma colega, perguntei quanto ela cobrava e cobrei dez reais a mais. Pronto, era esse o meu "método". Levei quase dois anos para perceber que estava trabalhando praticamente de graça. O aluguel subia, a recepcionista ganhava reajuste, o convênio atrasava, e o meu preço continuava ancorado num número que nunca tinha sido meu para começar.

Formar preço sem chutar dá trabalho, mas não é nenhum bicho de sete cabeças. É contabilidade básica, um pouco de pesquisa e a coragem de cobrar o que o seu trabalho vale. Vou mostrar o caminho que eu queria ter conhecido lá no início.

Comece pelos custos. Todos eles.

Antes de pensar em quanto cobrar, você precisa saber quanto custa manter a porta aberta. E aqui quase todo mundo subestima.

Junte os custos fixos do mês, os que existem mesmo que você atenda zero paciente. Aluguel, condomínio, energia, internet, telefone, secretária com encargos, contador, software de gestão, taxa do conselho, seguro, sistema de prontuário. Some tudo. Vai assustar um pouco, e é para assustar mesmo, porque até hoje muito médico só enxerga o aluguel e esquece o resto.

Depois, os custos variáveis, os que aparecem por atendimento. Material descartável, taxa da maquininha de cartão, impostos sobre o faturamento. Esses entram por cima de cada consulta.

Sem essa conta, qualquer preço é palpite. Com ela, você já sabe o piso: abaixo de certo valor, você está pagando para trabalhar.

Quanto vale a sua hora

Custo é só metade. A outra metade é o seu trabalho, e ele tem valor, não é caridade.

Pense em quanto você quer ganhar por mês como remuneração, separado de tudo que já entrou na conta de custos. Depois, seja honesta sobre quantas horas você realmente atende, descontando férias, congressos, dias parados, buracos na agenda. Ninguém preenche 100% dos horários, e quem calcula achando que sim sempre se frustra.

Divida o quanto você quer ganhar pelas horas que efetivamente trabalha e você chega no valor da sua hora. Aí olha quanto tempo dura uma consulta sua, primeira consulta costuma levar mais que retorno, e você tem a parcela do preço que corresponde ao seu trabalho.

Preço da consulta, em essência, é isto: a fatia dos custos que cada atendimento precisa cobrir, mais o valor da sua hora. Quem ignora um dos dois lados sempre erra.

A CBHPM como referência, nunca como tabela fixa

A Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos existe e pode servir de referência para você entender como o mercado precifica consultas e procedimentos. Use como bússola, para não se perder completamente.

Mas atenção a um ponto que não é detalhe: o Código de Ética Médica veda o tabelamento de honorários e a divisão de tabela de preço entre médicos. Ou seja, ninguém pode te obrigar a seguir uma tabela, nem você pode combinar preço com colegas para padronizar valores na cidade. A CBHPM é parâmetro de mercado, não regra que se cumpre. Você forma o seu preço com a sua conta; ela só ajuda a calibrar se você está dentro de uma faixa razoável.

Pesquise o mercado local com cuidado

Custo e hora te dão o piso. O mercado te diz o teto e a faixa onde você consegue se posicionar.

Vale entender o que se pratica na sua cidade, no seu bairro, na sua especialidade. Médico de uma capital cobra diferente de quem está no interior, e isso é legítimo. Mas pesquisar mercado é uma coisa, copiar o preço do vizinho é outra. O custo do consultório dele não é o seu. O tempo de formação, a estrutura, a localização, o perfil de paciente, tudo muda. Copiar preço é copiar a conta errada de outra pessoa.

Os erros que eu já cometi (e vejo todo dia)

O primeiro foi exatamente esse: copiar o vizinho. Sem saber os custos dele nem os meus, peguei um número solto e adotei. Deu no que deu.

O segundo, e talvez o mais caro: nunca reajustar. Tem médico cobrando hoje o mesmo valor de três, quatro anos atrás, enquanto cada custo dele subiu. Isso é perder dinheiro em silêncio. Reajuste anual, acompanhando a inflação e a evolução dos seus custos, devia ser tão automático quanto renovar o registro no conselho. Não precisa avisar com pompa. Precisa fazer.

O terceiro: achar que preço baixo enche a agenda. Às vezes enche, de paciente que não valoriza, que falta sem avisar, que pechincha. Preço justo atrai quem entende o valor do que você entrega. Barato demais, às vezes, espanta o paciente certo.

Particular puro ou convênio: contas diferentes

Se você atende particular puro, você define o preço e tem controle total da margem. A conta acima vale direta.

Se você atende convênio, a lógica vira do avesso. Quem define o valor é a operadora, e geralmente é um valor apertado, abaixo do que você cobraria no particular. Aí o jogo não é formar o preço, é decidir se aquele volume de atendimentos paga a conta e se compensa. Muito consultório vive de um mix: alguns convênios para garantir fluxo e o particular para a margem. Não existe resposta única. Existe a sua planilha mostrando o que cada modelo deixa no fim do mês.

Sobre divulgar preço: cuidado

Uma observação que muita gente esquece. O CFM trata como infração ética usar o preço da consulta como instrumento de propaganda, anunciar valor como atrativo comercial, fazer promoção de honorário. Informar o valor a quem pergunta é uma coisa. Estampar "consulta por R$ X, a mais barata da região" é outra, e te coloca em risco perante o conselho. Forme seu preço com critério e informe com discrição.

Dica para fazer hoje: abra uma planilha e liste todos os custos fixos do seu consultório no último mês, sem deixar nada de fora, nem a assinatura do software nem a água da sala de espera. Divida esse total pelo número de consultas que você fez no mês. Esse número é quanto cada atendimento precisa render só para cobrir custo, antes de você ganhar um centavo. Se o seu preço atual estiver perto demais dele, você acabou de descobrir por que o mês nunca fecha. Um bom sistema de gestão de consultório facilita reunir esses números, mas a planilha no papel já resolve para começar.

Perguntas frequentes

Quanto cobrar por consulta médica particular?

Não existe um valor único, porque depende dos seus custos, do valor da sua hora e do mercado da sua região e especialidade. O caminho correto é somar custos fixos e variáveis do consultório, definir quanto a sua hora vale e calibrar com a faixa praticada localmente, sem copiar o vizinho.

Como precificar consulta médica sem ferir o Código de Ética?

Forme o preço com a sua própria conta de custos e remuneração. O CFM veda o tabelamento de honorários e combinar tabela de preço entre médicos, além de proibir usar o preço como propaganda. A CBHPM serve de referência de mercado, nunca como tabela obrigatória.

Com que frequência devo reajustar o valor da consulta?

O ideal é revisar pelo menos uma vez por ano, acompanhando a inflação e a evolução dos seus custos. Ficar anos com o mesmo valor enquanto aluguel, salários e impostos sobem significa perder margem em silêncio. Reajuste deve ser parte da rotina financeira do consultório.

Vale a pena atender convênio ou só particular?

Depende da sua conta. No particular você controla o preço e a margem; no convênio a operadora define um valor geralmente menor, mas pode trazer volume. Muitos consultórios trabalham com um mix. A decisão deve sair de uma planilha que mostre quanto cada modelo deixa no fim do mês, não do achismo.

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Por Equipe Consultório Grátis em 07/09/2026 09:00:00

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